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Mariana Fonseca detida na Indonésia após homicídio brutal por 70 mil euros

O país entrava na primeira vaga da pandemia e nos primeiros dias de confinamento. Era dia 20 de março de 2020, quando Diogo Gonçalves abria a porta de casa a uma pessoa da sua confiança.

Engenheiro informático, de 21 anos, a trabalhar num empreendimento turístico no Algarve, deixava entrar Maria Alexandra Malveiro Davidachwili, colega de trabalho, pessoa próxima, por quem, segundo a investigação, nutria carinho.

O que se seguiu para lá daquela porta veio a revelar-se um homicídio perturbador, que se acredita ter sido motivado por dinheiro. O corpo de Diogo foi desmembrado e espalhado por diferentes pontos do Algarve. A investigação expôs passo a passo o que havia acontecido nos dias anteriores.

Seis anos depois, o caso é recordado, na sequência da detenção de uma das jovens condenadas, Mariana Fonseca, na Indonésia. A ex-enfermeira, considerada coautoria do crime, estava a ser procurada pelas autoridades depois de se ter colocado em fuga no ano passado.

O encontro, o plano, a morte

O encontro entre Diogo e Maria fazia parte de um plano. Plano esse que começara com a intenção de Maria de roubar cerca de 70 mil euros, uma quantia que o jovem tinha recebido por uma indemnização depois de a mãe ter morrido atropelada em 2016, na zona de Albufeira.

De acordo com a acusação do Ministério Público, Maria Malveiro e a então companheira Mariana Fonseca, à data enfermeira no hospital de Lagos, sabiam da existência desse dinheiro.

Naquele dia, as duas viajaram juntas até Algoz. Mariana ficou no carro e Maria subiu sozinha até à casa de Diogo. O objetivo, de acordo com o MP, era drogar o jovem, imobilizá-lo e obrigá-lo a entregar o dinheiro. Para isso, levaram diazepam, abraçadeiras, fita adesiva, luvas e uma faca.

O plano prosseguiu. Maria colocou os calmantes na bebida de Diogo, até o conseguir prender a uma cadeira e chamou a companheira que estava no carro. O que aconteceu nos minutos seguintes continua, ainda hoje, envolto em relativo mistério, depois de Mariana ter apresentado duas versões distintas dos factos.

Sabe-se que, segundo a acusação, o plano de roubo escalou de tal forma que Diogo acabou morto por asfixia às mãos de Maria que lhe apertara o pescoço num golpe de ‘mata leão’.

O corpo

Embora o plano tivesse descambado, o objetivo mantinha-se. Já com Diogo sem vida, Maria Malveiro cortou o polegar e o indicador da mão direita do jovem, utilizando os dedos para desbloquear os telemóveis que lhe pertenciam e, assim, aceder às aplicações bancárias através da impressão digital.

Depois, o corpo foi enrolado num cobertor, colocado na bagageira do carro da própria vítima, com destino a Lagos, onde as duas moravam. Na garagem, já no dia seguinte, o cadáver foi desmembrado com um cutelo e as diferentes partes do corpo colocadas em vários sacos do lixo.

Os restos mortais acabariam espalhados pela região algarvia. Uma parte do corpo foi atirada de uma arriba em Sagres, e outras deixadas na zona do Pego do Inferno, em Tavira.

O dinheiro, a polícia e a detenção

Ao mesmo tempo que se desfaziam do corpo de forma faseada, Maria e Mariana empenhavam-se a tirar o dinheiro da conta de Diogo. Foram feitos vários levantamentos em caixas de multibanco, quase sempre no valor máximo permitido (400 euros), e realizadas transferências através de MBWay, revelou a investigação da Polícia Judiciária.

De acordo com as autoridades, as duas também enviaram mensagens a amigos e colegas através do telemóvel de Diogo, para que ninguém desse conta do seu desaparecimento. Não foram bem-sucedidas, porque o conteúdo e a forma das mensagens levantaram suspeitas.

Seis dias depois do homicídio, a 26 de março de 2020, começaram a aparecer os primeiros restos mortais. No mesmo dia, e em dois pontos separados por mais de 100 quilómetros, Sagres e Tavira, foram encontradas partes do corpo do jovem, numa altura em que o seu desaparecimento já tinha sido comunicado às autoridades.

Foram precisos dias para a Polícia Judiciária deslindar o caso. Os investigadores analisaram os movimentos da conta bancária do jovem, aos quais juntaram registos do telemóvel e as imagens de videovigilância das caixas de multibanco, que acabaram por entregar Maria e Mariana.

As duas foram detidas a 2 de abril de 2020.

Confissão, condenação, morte e fuga

Ambas confessaram o crime nos primeiros interrogatórios judiciais, mas a versão conjunta durou pouco tempo. Quando o julgamento começou, a 24 de fevereiro de 2021, no Tribunal de Portimão, as ex-companheiras já estavam desalinhadas.

Mariana Fonseca quis prestar declarações, na primeira sessão, numa tentativa de culpar Maria pela morte do colega. A enfermeira confessou ter ajudado a limpar a casa depois de cometido o homicídio, assim como a esconder o corpo. Negou, no entanto, ter matado Diogo e ter participado no desmembramento do cadáver. Referiu, aliás, que tentou reanimá-lo depois de ter sido asfixiado.

Maria, por outro lado, decidiu manter-se em silêncio.

A primeira sentença foi abonatória para Mariana. Distinguia, de forma clara, o papel de cada uma no homicídio de Diogo. O tribunal considerou provado que Maria Malveiro tinha sido responsável pela morte do jovem, condenando-a à pena máxima de 25 anos de cadeia, ao contrário de Mariana Fonseca, absolvida do crime de homicídio, e condenada apenas por profanação de cadáver, burla informática e peculato. Foi-lhe aplicada uma pena única de quatro anos.

Mas o que parecia um desfecho, estava longe de o ser.

Terminava o ano de 2021, corria o penúltimo dia do ano, quando Maria Malveiro, já a cumprir pena, foi encontrada morta na cela que partilhava com outras reclusas na prisão de Tires. O cenário indiciava um enforcamento.

Desaparecia, assim, a autora material do homicídio, numa altura em que o Ministério Público já tinha apresentado um recurso em relação à pena aplicada a Mariana.

A ex-enfermeira estava em liberdade quando, em julho de 2023, viu a sentença alterada pelo Tribunal de Évora, que entendeu que a jovem também tinha participado no homicídio de Diogo, condenando-a a 25 anos de prisão. A defesa de Mariana recorreu, então, para o Supremo Tribunal, que confirmou a condenação, mas reduziu a pena para 23 anos.

Passados dois anos, no pico do verão de 2025, o Tribunal de Portimão emitiu o mandado de detenção para Mariana, que já não se encontrava em Portugal. As autoridades tinham-lhe perdido o rumo. O advogado confirmaria que a cliente tinha conhecimento da deliberação judicial e que a decisão de se entregar às autoridades caberia apenas à própria.

A fuga terminou meses depois e a milhares de quilómetros, no sudeste do continente asiático. Esta sexta-feira, no cumprimento do mandado de captura internacional, as autoridades da Indonésia detiveram Mariana Fonseca em Jacarta.

A Polícia Judiciária informou hoje, em comunicado, que se encontra “a tratar dos procedimentos legais tendo em vista a extradição para Portugal a fim de cumprir a pena de prisão decretada pelos tribunais portugueses”.

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